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  1. Carnaval

    fevereiro 16, 2012 by gamella

    Sou feito de sonhos

    Também sou feito de espera

    Um dia após o outro

    como uma melodia francesa

    Uma chanson d’amour

    Algo que enalteça seu coração

    Sou feito de um pesar enfadonho

    Mas sou capaz de dormir no seu corpo por uma era

    Sou feito de súplicas e aferição

    Qualquer coisa que te enlouqueça

    Sou feito de passado, mas também sou futuro

    O seu futuro num domingo azul

    Ou mesmo numa quarta-feira de cinzas

    Alegria de um remador

    que ao seu redor anda em círculos

    Círculos de todos os tamanhos e cores

    como fogos de artifícios

    Fogos que explodem no seu olhar

    Um dia triste, mas repleto de esperanças

    Sou feito de loucura

    e também foi feito de espera.


  2. Onde quer que você esteja

    novembro 25, 2011 by gamella

    Chuva caindo no telhado de Brasília já tarde da noite. Isso me lembra a minha infância, algum lugar perdido lá no passado, entre o primeiro tombo de bicicleta e o primeiro beijo, aquele afobado, meio escondido, desengonçado… chuva caindo no telhado e aviões cortando o céu do cerrado. Isso me lembra você, onde quer que você esteja…


  3. Hipocrisia

    outubro 26, 2011 by gamella

    Atirar a primeira pedra é bem mais fácil que reconhecer os próprios erros.

    Apontar o erro alheio é uma forma sutil de esconder a própria desgraça.

    Ela valsava o mundo vestida de vermelho. Ele tinha um terno verde e se remoía de invejas.

    Ela encontrou a felicidade numa quarta-feira. Naquele dia, ele resolveu ficar em casa, relendo o caderno de esportes. Seu time acabara de perder o campeonato nacional.


  4. Vida

    outubro 18, 2011 by gamella

    Se a vida é cheia de surpresas, onde eu encontro a minha?

    Se a vida é mesmo única, ela devia ser vivida toda de uma só vez.

    Um dos baratos da vida é o encontro, o esbarrar no outro. A poesia vem daí, dos esbarrões.

    Quantas vezes você já se esbarrou em alguém?

    Quantas vezes você já se esbarrou com um mesmo alguém?

    Quantas vezes alguém esbarrou em você?

    Quantas vezes você gostaria que eu tivesse esbarrado em você?

    Onde estão as nossas surpresas?


  5. Branco

    setembro 28, 2011 by gamella

    Deixa eu ver o teu rosto ainda uma última vez
    Deixa eu provar os beijos doces da tua boca
    O mundo passou depressa por aqui
    Você ainda vestia verde quando tudo se fez
    O céu cinza de Brasília ainda suplicava por chuva…
    Eu implorava pelo rebolado
    que um dia esqueceste em meu retrovisor

    Deixa meus sonhos vagabundearem alto
    Talvez um dia ainda toquem o teu corpo


  6. Brincar de querer

    setembro 14, 2011 by gamella

    diante dos olhos, o desejo
    vestidos floridos, frases vertidas

    um beijo não é muito
    para quem já padeceu do desejo

    eu escuto!
    corre o destino, a noite empoeirada

    um risco
    quer dizer Francisco

    cuidado com o que você quer!
    cuidado com o que você sonha, pede, rouba

    a noite se apressa
    eu tenho um mundo nos ombros

    eu tenho alguns sonhos nas mãos
    respiro fundo, sinto o vento no rosto!

    não há de ser nada
    toda beleza efêmera

    em breve, há de desaparecer
    diante dos olhos, o vácuo!


  7. outono

    agosto 26, 2011 by gamella

    o tempo vai voando diante da nossa janela
    “o mundo novo que ergue coisas belas”
    e você não é mais a mesma
    vejo o seu corpo se transformando
    adereços, linhas, sentidos, cores, gestos
    pouco a pouco, deixando de ser menina
    meus olhos te comem, enquanto isso!
    ainda sinto o teu cheiro-ar
    o gosto alheio, agridoce, sonolento
    Brasília-agosto, barroada de vermelho
    acompanho os teus passos
    à espreita!
    vinte e poucos anos dando lugar à  porção mulher!
    o mar que inunda o oceano
    vontade de me banhar no teu torso, contraponto nu
    o tempo é violento, leva a mentira, o desassossego
    o tempo bom de nós dois
    sonhos algodão-doce que se dissolveu na boca
    teu corpo à meia distância,
    me pedindo pra ser tocado
    e eu de mãos atadas,
    dadas ao meu destino,
    tendo que bancar o cara forte…


  8. Le temps détruit tout

    agosto 23, 2011 by gamella

    Das coisas que por aqui ou acolá posto, o tempo é um dos temas recorrentes. Na verdade, a passagem do tempo, o tempo passando, indo, se findando. Essa coisa que parece um andar em círculos, mas ao mesmo tempo é um caminhar em linha reta. Tenho certo fascínio pelo tempo passando. Por vezes, é como se a vida corresse em direção a um desfiladeiro e cada segundo que passa estamos mais próximos dessa “hora derradeira”, turva, inadiável, de saltar, de olhos fechados ou não. Talvez, mais até do que o tempo passando, o que me impressiona mesmo é a consciência de que o tempo passa, de que o tempo é implacável. Consciência que vem naquele período pós-adolescência, início da juventude, ali perto dos 25 anos. Quando se sai daquela coisa quase inerte da infância e adolescência, quando tudo cresce ao mesmo tempo que você, e se cai na estagnação própria, enquanto as coisas ao teu redor continuam a crescer, mas você não. É sua turma crescendo junto contigo até que tudo para, aí vem os filhos da tua turma que vai crescendo, crescendo, crescendo, até o dia que finalmente devem parar. Fora isso, ao mesmo tempo que o tempo passa, a vida é corrida, e a sensação de que o não há tempo suficiente é cada vez maior – essa coisa sufocante, pós-moderna, nossa de cada dia. Existe, ainda, o tempo engarrafado, que nos é roubado nas pequenas coisas do dia-a-dia: horas em elevadores, no trânsito, na fila do banco, procurando vagas num estacionamento qualquer, em pé num coletivo, sentado numa privada, pensando num monte de bobagens como essas… Daí, então, o jogo do Flamengo no domingo, o cineminha na segunda, o beijo molhado e inesperado depois de uma noite boa de sono, de pernas entrelaçadas, passam a ter uma importância imensa.


  9. dois

    agosto 8, 2011 by gamella

    “nem era o meu melhor dia
    nem eram os meus melhores versos…”


  10. Meia-noite em Paris

    agosto 2, 2011 by gamella

    Meia-noite em Paris (Midnight in Paris) é Woody Allen na sua melhor forma. Vi outro dia, em viagem ao Rio de Janeiro. Entrei no cinema despretensiosamente. Nos últimos anos, a profusão de filmes do velho neurótico fez com que eu me perdesse em tantos títulos – o último ainda havia sido Vicky Cristina Barcelona. Estou uns três ou quatro atrasados na filmografia de Allen. Talvez, por isso, “Meia-noite em Paris” tenha me surpreendido, pois não criei expectativas, como quase sempre faço ao ir ver um Woody Allen. Não planejei assistir. Foi aquela boa sensação de quando vi  “Noivo Neurótico Noiva Nervosa” (Annie Hall) pela primeira vez, ou “Bananas”, ou “Tudo o que você queria saber sobre sexo e tinha medo de perguntar” (Every Thing You Always Wanted to Know About Sex  But Where Afraid to Ask). Owen Wilson, no papel de Gil, um roteirista americano, aparentemente, bem-sucedido, faz uma atuação à altura de um filme de Woody Allen, por vezes, lembra o próprio. Apaixonado por Paris, o roteirista de Hollywood, sonha em largar tudo para virar um escritor marginal, vivendo sob a chuva da cidade luz. Mas como é comum em algumas tramas de Woody, na outra ponta da história, Gil está prestes a se casar com uma mulher (Rachel McAdams) de família rica, preocupada com tudo, menos com uma vida em Paris. A partir disso, o personagem principal se lança numa jornada em busca do sentido da vida, por assim dizer (risos). Usando do realismo fantástico, Woody Allen leva mais um alter-ego seu a trilhar numa viagem interior, que também é uma viagem no tempo, cheia de referências históricas, fofocas de época e coisas parecidas. Tudo isso para explicar uma única coisa: a “belle époque” é sempre a próxima, pra não dizer a nossa própria. Meia-noite em Paris vale cada centavo gasto em ingressos, pipocas, refrigerantes e tudo em quanto… sem contar na Carla Bruni e a Marion Cotillard, essa última, merecia uma capítulo a parte.